“Efeito borboleta”: nostalgia ou futuro alternativo?

Como seria bom se pudéssemos voltar no tempo, pelas letras de uma carta, de uma poesia, de um relato de diário, e até de uma imagem eternizada no papel e/ou demais emoções registradas!…

Assim me senti assistindo dois filmes da trilogia “Efeito borboleta” (2004, 2006 e 2009). A mensagem defendida é que uma simples ação como o “bater de asas de uma borboleta” pode desencadear diversas consequências que saem do nosso controle, mas numa percepção bem mais otimista da nostalgia, nossa reflexão não deve ser somente sobre a (im)possibilidade de reconstrução do passado visando um futuro mais promissor, e sim pela alternativa de investigar nossas questões emocionais a fim de aprender a lidar melhor com elas e com a nossa dor. O primeiro filme da trilogia aborda uma alternativa de reformulação da vida por meio de páginas de diários do protagonista, e o segundo filme retrata um retorno ao tempo e espaço por um álbum fotográfico. Eu amo a ideia da possibilidade de um universo paralelo a nosso dispor, mas em verdade ele já coexiste o tempo inteiro, na fuga dos nossos pensamentos perversos, secretos e utópicos. Sempre encontraremos em algum lugar do passado a felicidade que alguém nos tenha dado ou roubado, e novas maneiras de potencializá-las, conformá-las ou transformá-las. No fim o que fica em nós é muito mais o sentimento sobre as nossas lembranças do que foi realmente vivido na nossa história.

Sobre um amor vívido

Ele é forte, de costas largas, alto e auto-confiante. Ela é pequena, mas chamativa, com seu decote que a muitos instiga (e até castiga). Ambos usam um cordão preto de apretecho arredondado, mas não vivem acorrentados. Ele tem um acolhimento brando, um interesse intenso nas pessoas, um desejo ardente de ser cada dia melhor, mesmo com o seu ideal bastante diferente. Ela tem presteza, simpatia e delicadeza. Ele tem um sorriso extenso e abaixa a cabeca ao sorrir, até mesmo tenso. Ela tem uma extrema alegria  que a todos em sua volta contagia, e o seu olhar a todo tempo brilha e fascina, e só se fecham quando ela ri e gargalha, arrebitando o nariz e arrebatando ate os corações mais gelados e desolados. Eles fazem quase tudo juntos: comem, caminham, estudam e vêem um filminho. Ele é friorento, ela é calorosa; ele a abraça, ela o acomoda. Eles se vivem! Eles se amam! E nada nem ninguém mais incomoda!

Apenas um sonho

Esse conto é só pra contar
de um sonho difícil de acreditar. Nele encontro aquele
cara, que até então não conhecia, em diversas situações
inusitadas. Eu o vejo, por exemplo, bater a cabeça numa
trave de gol tentando defender uma bola, e sofrendo o
impacto daquele entrave de seu desempenho no resultado
final. Agora o percebo no meio do gramado do estádio
resmungando por uma partida de futebol que há mais de três
anos seu time perdera, e logo depois num banco de praça
recontando aquela história para outras pessoas. Por um
breve momento ele cansa de falar, e com a voz rouca percebe
que muitos não mereciam o esforço da sua voz. Em vez de se
arriscar em uma corrida onde pudesse refletir melhor sua
própria vida, sem intercorrências e em fuga dela (tal como
fez “Forrest Gump”), ele prefere dispensar sua energia
no lento e complexo deslize de uma tábua de madeira com
rodas. Na pista sinuosa da vida lá está ele, pulando
fases, descendo ladeiras, mas sempre voltando erguido pro
mesmo lugar. Ele se sente bem quando está no topo, com a
segurança da tarefa bem concluída, quando seu desafio era
apenas contornar um abismo que o separa do outro lado da
pista, levando as marcas dos tombos que vai juntando neste
percurso. Também em meus sonhos eu o levo comigo, dirigindo
um carro que nem sequer existe e passando por alguns lugares
que nunca visitei. Depois o vejo imóvel e sentado apenas na
carcaça de ferro de um automóvel abandonado que nunca
poderia dar partida. Esse homem já adentrou minha casa, e
não era uma simples visita porque agia como se nela já
morasse, rascunhando letras tortas em um bloco de notas, ao
pé de uma lareira apagada, ou no sofá da sala assistindo a
um desenho, ou a um clássico do futebol, e me ajustando no
meio de suas pernas ao tentar escovar meus longos cabelos
embaraçados. Se eu volto o olhar para poltrona, só vejo
alguns de nossos fios brancos deixados no estofado. E o
protagonista também aparece sozinho, jogando videogame a
partir de um contexto que ainda não conhecemos, ou nadando
numa piscina repleta de monstros de mares imaginários,
aguardando o enigma de algum “mestre dos magos”. E na
janela percebo um telescópio de onde ele gosta de ver as
estrelas e outros planetas, perdendo-se no infinito de
possibilidades, embora ainda esteja ocupando o mesmo
espaço, pois ele também é um sonhador, e seus anseios
são ilimitados. Sinto-o como um alienígena que invadiu
meus pensamentos e habitou minha mente. De repente aquele
ser de quem eu esperava receber palavras de apoio e carinho
me envia mensagens subliminares e codificadas que ainda não
consigo entender. No armário da sala há jornais empilhados
junto aos meus antigos papeis tumultuados e empoeirados, mas
ainda assim ele encontra CDs da banda que gosta para
embalar nossa tarde sóbria e sombria. Agora no banheiro, as
roupas dele estão espalhadas e misturadas à minha,
mostrando o quanto estou afetuosamente envolvida, e em
momento especial e pessoal do meu dia, tomando um banho de
água fria, percebo sem aborrecer-me que ele respingou pasta
de dente no vidro do espelho do armário, que ainda está
embaçado ao projetar sua imagem. Minha gata se aquece nesse
furdunço e parece fuçar algum sentido pra tudo isso (dizem
que os animais são mais sensíveis) e ele também atende
seu miado contínuo. E no quarto, ele se faz presente
debruçando-se sob livros que nunca havia visto antes, na
cabeceira de minha cama grande. Posteriormente ele foi se
afastando da casa e talvez estivesse indo trabalhar, mas
quando mirei ao quintal observei que no percurso da
caminhada ele pisou nas plantas e hortaliças, em seguida
lembrei que não as tenho. Por descuido entrou uma farpa na
sola de seu pé e me ofereci a retirar, mas estranhamente
ela não estava mais entranhada naquela pele já tão
castigada. Desperto, e ele não está perto. Sinto certa
estranheza no recinto. Refugio-me nas lembranças de seu
jeito poético de ser, e nas fotografias em que ele ganhou
forma enquanto registro do único episódio em que estivemos
juntos de verdade, e que nos apresentaram pessoalmente.
Embora a recordação fique um pouco esbranquiçada, me
alegra pela possibilidade de colori-la. Sentada em um canto
da sala acompanhando sua opinião através de um site de
questões cotidianas, ou conferindo seus novos e-mails pelo
celular, fico em estado de graça, e quanto mais me perco em
seus encantos, menos desbotado ele fica. Torna-se quase que
obrigatório o ritual de respondê-lo, mas os curiosos e
inesperados sentimentos que me provocam geram expectativas
que não poderiam se concretizar no momento. Às vezes me
percebo sonhando acordada ao reviver essas cenas, entre
outras esquetes que me agradariam. Tenho medo do quarto
escuro na calada da noite. Tenho medo de um amor absurdo,
obscuro e delirante. Ouço o distante som do meu chuveiro
quente numa manhã de verão, como se ele lá estivesse,
desafiando meu cotidiano, deturpando minhas certezas,
roubando meu sossego, enlouquecendo meu ego, confundindo
minha autoestima. Imagino-o na copa, e agora não me refiro
ao evento futebolístico, e sim a cozinha, que ele deixou
suja, cheia de migalhas de pão e outros farelos espalhados,
mas me entregando seus desejos de bandeja para me servir
deles. Logo também o vejo cozinhando meus planos, fazendo
cuscuz doce e com os beijinhos de coco que deixei na
geladeira. A casa agora parece grande demais pra minhas
escassas alegrias, e se ocupa com a minha amargura. Aguardo
superar minha insônia para que ele volte a preencher o meu
rancor com seu bom humor, enquanto se sonha. Recordo que
este homem tão imperfeito também tem outra a sua espera e
me gera certa discórdia essa concorrência desleal que o
tempo me implica. De repente sua imagem desaparece, e quando
acordo me dá um branco. Não queria acordar, não concordo
com essa peça que a vida me prega e nem acredito que não
consigo me lembrar de nada, pois era apenas mais uma
realidade virtual que eu erroneamente visualizava enquanto
sonhava.

OBS: texto de fevereiro de 2014

Um texto bastante confuso e inconcluso

Num silêncio profundo o palpitar do meu coração perturbado e confuso, querendo saber de vc, querendo se ampliar do seu prazer. Que piegas falar de amor usando essas palavras tão repetitivas. Que mesmice nos meus textos descrevendo sentimentos que parecem únicos, mas milhões de pessoas iguais devem estar vivendo ilesos. Eu aqui romanceando o que não passa de um fervor romano. Agora você sabe de história, Vanessa? Não estudava direito na escola, nunca teve paciência pra TV, nem ler jornais ou assistir palestras. Faltou falar das falhas de memória, e todo tempo que jogou fora com as neuras ilusórias, que já até foi motivo de questionamento do interesse alheio. Como pode alguém gostar dela se só sabe entornar e nem serve pra conversar sobre nada? Já fui sim esse tipo de pessoa, mas achei quem julgava que mulher boa era aquela que não ficava muito agarrada e ainda disputava a cama na madrugada, querendo tomar cada vez mais espaço  com seu sono agitado. Uma mulher que divide o copo, faz trapaça, certo ar de sedução ou graça e ainda lhe rouba a garrafa. Que fica falante, ofegante, delirante. Eu iria falar de vc e da falta q me faz e acabei falando d mim porque no momento me sinto incapaz de organizar qlqr pensamento coerente a seu respeito. A despeito do seu desprezo depois de um dia estressado, queria estar com meus defeitos num edredom com meu pé enrolado aí do seu lado, mas nosso jeito eh sempre complicado. Então faço um apelo pelo prazer de ve-lo do dedão do pé ao último fio de cabelo.
Obs: texto de dezembro de 2015